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Written by Alex Rodrigues   
Friday, 06 March 2009 14:57

Aventura que levou dois ciclistas a pedalar 1,7mil km na mesma bicicleta vai virar livro

Uma viagem de sentidos à exaustão. E agora, mais do que nunca, de um significado muito mais latente: o da amizade construída diante de todas as improbabilidades. Uma viagem onde cada um trouxe mais do que levou. Exceto os quilos a menos. O que leva duas pessoas que mal se conheciam a pedalar, na mesma bicicleta, por mais de 1,7mil km, numa verdadeira aventura, rumo ao desconhecido? O que leva dois homens, um que enxerga e outro que vê apenas vultos, a partirem sem saber ao certo se realmente chegariam? Loucura? Não. Eles provaram que ainda há humanidade. Provaram entre eles mesmos. E nas histórias e pessoas com as quais esbarraram ao longo da aventura.

E tudo isso vai virar um livro. Essa é a história de Weimar Pettengill, de 37 anos, empresário, morador do ParkWay, casado, dois filhos. E de Adauto Xavier da Trindade Belli, também de 37 anos, solteiro, sem filhos, morador da zona rural do Tororó, adestrador de cães e cego. Um dia, Weimar pensou em fazer sozinho uma grande viagem de bicicleta. E a Estrada Real — que parte de Minas Gerais, mais precisamente de Diamantina, ao litoral do Rio de Janeiro — lhe veio à cabeça. Seriam 900km.

Mas ele queria mais. “Por que não sair de Brasília, por Unaí”, pensou. E logo em seguida pensou novamente: “Vai ser muito egoísmo não dividir tanta beleza com alguém?”. Mas quem seria? No grupo ciclista Rebas, projeto que promove passeios de bicicleta com cegos, Weimar ouviu falar de Adauto, um cara que corria e gostava de aventuras radicais. Ligou para ele. Do outro lado da linha, o adestrador de cães não pensou duas vezes. “Eu topo”, respondeu, sem nunca ter encontrado Weimar na vida. E sozinho, se perguntou: “Quem me convidaria para uma viagem dessas?” Ele mesmo achou a resposta: “Ninguém. É a minha chance”. E combinaram uma coisa: até o dia da partida, teriam poucos encontros. Deixariam para se conhecer na estrada. Essa sim, além das subidas e descidas, da estrada de terra (a maior parte do percurso), da Serra do Espinhaço e seus 28km de subida, seria a maior prova dos dois desconhecidos.

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
Weimar e Adauto (D) contaram como foi pedalar em uma só bicicleta
Em 18 de janeiro, o Correio contou com exclusividade a aventura que os ciclistas fariam dali a alguns dias. Era o segundo encontro da dupla, em treinamento, já na bicicleta Tandem (que leva duas pessoas), toda adaptada para a viagem — novas rodas, suspensão, freios a disco. No dia 29, os dois partiram. De concreto, apenas o mapa que Weimar carregava. Tudo mais seria um mistério. Até mesmo se terminariam a aventura.

Na tarde quente de ontem, no Parque da Cidade, Weimar e Adauto reencontraram o Correio. E contaram como foi a viagem que se tornou mais que uma aventura: foi a redenção dos próprios limites. “Durante todo o percurso, apenas cinco pessoas perceberam que o Adauto tinha deficiência visual. Ele é incrível”, elogia Weimar. E continua: “Se hoje eu tivesse que convidar alguém pra outra viagem, acho que teria problemas”. Escondendo os olhos que não enxergam por trás dos óculos escuros, Adauto se emociona. E responde: “O companheirismo dele foi o que mais me marcou”.

Encontros inusitados
A chegada a Paraty, no Rio de Janeiro, destino final da aventura, foi em 15 de fevereiro, 18 dias depois da saída. “Quinze dias foram de pedal e três ficamos parados, em função do atoleiro da estrada e dos problemas com a bicicleta”, conta Weimar. E a peleja começou logo aqui, bem pertinho, faltando 20km para chegar a Unaí (MG), depois de pedalar 160km. “Enfrentamos 35 graus, a água acabou. Pensamos que não daríamos conta”, diz o inventor da viagem.

Diante do cansaço, Weimar perguntou a Adauto se ele queria parar. Ele não hesitou: “Nunca”. E lá se foram. Chegaram à cidade, arrumaram um canto para dormir e partiram no dia seguinte. E eis um encontro inusitado. Na estrada, encontram um homem que também viajava de bicicleta. Era inevitável não parar para uma prosa. Weimar perguntou o que o rapaz fazia ali. Ele não se demorou a responder: “Tô com problema na Justiça de Brasília e vim me esconder aqui em Unaí”. E o que você fez? “Tava puxando 12 (leia-se: preso por tráfico). Nesse momento, passou um carro da polícia. E acenou para os ciclistas. Adauto não contou conversa. “Vamos nessa, Weimar...” E pedalaram até se perderem do rapaz.

No terceiro dia da viagem, em Brasilândia (MG), mais uma cena inusitada. Acabados de cansaço, procuraram um hotelzinho para dormir. E deixaram a bicicleta na porta, sob a responsabilidade do vigia. O vigia dormiu. E, quando os ciclistas acordam, cadê a bicicleta? “Dois bêbados estavam zanzando com ela pela cidade”, conta, ás gargalhadas, Weimar. E ao pedirem explicação por que os dois bebuns tinham pegado a bicicleta, um deles prontamente explicou: “Uai, sô, quando é que a gente ia andar num trem tão doido desse?”

E a viagem rumo aos sentidos prosseguiu. Cada dia, uma nova aventura. Em todo o lugar aonde chegavam, duas perguntas eram feitas: “De onde vocês vêm? E tão indo pra onde?”. “As crianças seguiam a gente em suas bicicletinhas”, conta Adauto. Os dois viraram heróis. Pessoas os acolheram. Contaram suas histórias, seus causos. Teve até quem falou, com categoria, sobre a Inconfidência Mineira. Foram presenteados com uma folhinha de Santo Expedito. Pediram para avisar quando chegassem a Paraty. E o povo lhes desejava sorte.

A viagem também foi feita de outras aventuras. Houve pausa para uma escalada. Adauto subia os paredões apenas ouvindo a voz de Weimar e tateando o que sentia diante de suas mãos. Depararam-se com cachoeiras cinematográficas. E mergulhos que os faziam recuperar as forças. Weimar foi os olhos de Adauto. E o rapaz que não enxerga encorajou o ciclista que o conduzia a seguir. E o ensinou coisas que ele nunca tinha visto. Na subida da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, ouvindo as belezas que Weimar lhe narrava, ele disse: “Essa é a minha igreja”. Na tarde de ontem, ainda emocionado, Weimar revelou: “Antes da viagem, eu achava que o Adauto era bruto. Ele me surpreendeu com a sutileza de suas percepções. Aguentou calado situações que ninguém suportaria. Ele é um herói”.

Detonados
O calor de 41 graus e as pedaladas dia e noite foram tirando a resistência dos dois aventureiros. A perna de Adauto travou. “Não tinha mais como eu triscar o pé no pedal”, ele diz. E assim, tomando remédio, pedalou dois dias só com um pé. “Eu não podia desistir”, insiste. Para completar, em São Gonçalo do Rio das Pedras, já na Estrada Real, o freio estragou, o eixo da roda traseira não suportou e as forças dos dois estavam quase minando.

Houve trechos, em função do atoleiro, que foi impossível pedalar. A bicicleta teve que ser empurrada por mais de 60km. Foram os momentos mais difíceis da viagem. E chegou o asfalto. A Via Dutra, os carros, o trânsito infernal, o perigo em potencial. “Os últimos 20km que faltavam pra chegar a Paraty foram os piores. Meu pé estava em carne viva. E parecia que não chegaríamos nunca. Estávamos alucinados. Não conseguíamos mais nem falar”, lembra Weimar.

Mas chegaram. E dormiram como nunca dormiram antes. Passaram dois dias na cidade-destino. E voltaram a Brasília de carro. A bicicleta, na carroceria. A aventura foi registrada por Weimar numa espécie de diário de bordo. Todas as suas anotações vão virar um livro, que deve ser lançado em 60 dias. E os ciclistas, agora amigos de verdade, já pensam em novas aventuras. Novas viagens. “Eu peguei carona no sonho de Weimar”, reflete Adauto, ainda extasiado. Comovido, Weimar apenas ouve. O silêncio é a melhor resposta. Na verdade, o sonho e a loucura foram de ambos. Tinha tudo pra dar errado. Deu amizade, companheirismo, respeito e a certeza de que as adversidades aproximam e tornam as pessoas iguaizinhas. Tanto faz enxergar ou não. Ser empresário ou adestrador de cães.

Last Updated ( Friday, 06 March 2009 15:02 )
 

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